Camila Leite

Projeto 'Na Estrada com as Minas'

“A viagem se tornou minha prioridade. Qualquer desculpa que eu tente dar para mim mesma não funciona mais”, diz Camila Leite durante a nossa conversa para o Viaje, Mulher!

Depois de embarcar em sua primeira viagem sozinha, em 2014, ela entrou para o time daqueles que acreditam que viajar é uma experiência transformadora e indispensável. “Viajar pelo menos uma vez por ano” - foi a promessa que fez logo depois de voltar de um passeio pelo Sana, pequeno vilarejo repleto de muito verde e cachoeiras, a cerca de 150 km do Rio de Janeiro. Realizada após um turbulento período de luto e depressão, a viagem foi o ponto de partida para o projeto Na Estrada com as Minas.

Camila

O projeto

“Quando minha avó faleceu, eu perdi o gosto por tudo que me fazia brilhar os olhos. Gostava de escrever e parei. Estava no primeiro período da faculdade e abandonei. Então eu passei quatro dias no Sana, incomunicável e foi uma experiência transcendental para mim. Comecei a refletir e percebi o quanto aquela experiência estava me fazendo bem. Por isso, eu credito ao Sana e à viagem o início do meu processo de cura. Foi lá que eu fiz a promessa: quero viajar pelo menos uma vez por ano, quero sentir isso de novo pelo menos uma vez por ano”, revela Camila, que agora está no quinto período da faculdade de Jornalismo.

O plano de viajar mais não foi o único que voltou na mochila. Foi nessa mesma ocasião que se esboçaram as primeiras ideias para o Na Estrada com as Minas, primeira rede colaborativa de mulheres viajantes. “No Sana voltei a ter vontade de escrever e pensei que seria legal compartilhar minha experiência. Foi quando comecei a idealizar o Na Estrada com as Minas. Eu tinha entrado no Couchsurfing das Minas e estava começando a ter contato com outras mulheres viajantes e me inspirando”, revela. O Couchsurfing com as Minas é um grupo no Facebook que tem o intuito de facilitar o contato entre mulheres para disponibilizar hospedagens gratuitas, dicas de viagem e companhias para os roteiros turísticos. “No início era só um perfil no Facebook e no Instagram, mas acabei deixando a ideia quieta quando descobri que estava grávida”, relembra a viajante.

Por conta da gravidez, os primeiros passos do Na Estrada acabaram sendo adiados. “Afogada no mundo da maternidade, eu não tinha muito tempo para pensar sobre o projeto. Logo depois, quando estava mais segura e minha bebê completou quatro meses, decidi finalmente cair na estrada com ela e retomar o projeto”, conta.

Camila

Para tirar a ideia do papel, Camila foi à procura de outras mulheres que quisessem embarcar nessa trajetória, através de uma postagem no Couchsurfing das Minas. “Quando tive a ideia, achei que seria só mais um site em que eu escreveria. Mas o post que fiz no Couchsurfing fez tanto sucesso que várias mulheres queriam colaborar de alguma forma e fazer parte da equipe que até então não existia”, revela.

Na Estrada com as Minas

Atualmente, o Na Estrada com as Minas é coordenado por um grupo de mais cinco mulheres, além da Camila. São elas: Amanda Monteiro, Bruna Dantas, Luiza Rizzo, Raquel Albuquerque e Jandira Maciel. “Além da equipe, temos as correspondentes, que são as mulheres que compartilham seus relatos de viagem conosco. A intenção é que o Na Estrada seja uma rede de apoio, de compartilhamento e de troca, para que todas as mulheres consigam sentir que fazem parte do projeto”, explica a viajante.

Camila

Além das publicações de dicas e relatos, o Na Estrada também organiza passeios turísticos gratuitos pelo Rio de Janeiro e eventos que estimulem o debate sobre turismo consciente e democrático. Esse ano, para o Dia da Mulher, foi realizado o I Encontro Nacional de Mulheres Viajantes. “Desde o início tínhamos a proposta de conversar sobre um turismo mais democrático e levar pessoas a conhecerem a cidade. Começamos promovendo algumas trilhas e passeios culturais. Em novembro de 2017, com o dia da Consciência Negra, realizamos o primeiro encontro para falar sobre negros no turismo mundial e agora em 2018 abrimos a agenda pra falar do nosso assunto principal: mulheres que viajam”, diz.

Entre outros temas, o evento abordou os desafios de ser mulher e viajante. Camila relembra um pouco o que rolou no encontro e comenta sobre obstáculos que as mulheres enfrentam na hora de viajar: “Teve uma bate-papo sobre autoestima que marcou todo mundo e teve muitos relatos emocionantes. Pela experiência do evento e do Na Estrada, eu acredito que a principal dificuldade é ter a coragem de dar o primeiro passo. Por toda a sociedade machista que a gente vive, sei que a violência e a insegurança são problemas que nos afligem, mas eu acho que o maior impeditivo de mulheres viajarem mais e sozinhas tem a ver com autoestima. É preciso entender que não importa o lugar que você esteja, é preciso se cuidar para que você esteja bem consigo, seja aqui ou na França”.

Camila

Além de questões como essas que dizem respeito a tantas mulheres viajantes, Camila também nos lembra o quanto importante é tratar de outras dificuldades: “Ainda existem outras categorias a serem destrinchadas quando falamos de mulheres viajantes. É diferente para uma mulher branca, para uma mulher que é negra, para uma mulher que é mãe”.

Mulher, mãe e viajante

Sobre ser mulher, viajante, negra e mãe solo, ela comenta: “Sendo uma mãe negra, já fui extremamente desrespeitada e é muito difícil você se sentir bem, porque é sempre tudo culpa da mãe. As pessoas ainda ficam bastante assustadas, do tipo ‘nossa, como você tem coragem de levar uma criança? Se acontecer qualquer coisa, a culpa vai se sua’. A primeira vez que viajei sozinha sem a Clara, ao invés de me perguntarem como foi minha experiência, o feedback era ‘Se acontecer alguma coisa com ela longe de você, a culpa vai ser sua, mesmo que você esteja longe e não tenha nada a ver com isso’. Isso nos amedronta de tal forma que nos deixa paralisadas.”

Camila

A Camila acredita que ser mãe não é motivo para deixar os planos de viagem de lado. Quando descobriu que estava grávida, ela teve medo de não conseguir cumprir a sua promessa de viajar uma vez por ano. “Eu fiquei pensando que nunca mais ia viajar na minha vida. Como que eu vou viajar com uma criança?”, relembra. Mas a preocupação não se concretizou. Pelo contrário. Desde o nascimento da Clara, que hoje tem quatro anos, ela já realizou seis viagens com a filha. “Não deixe de ir. É muito lindo ver o rostinho deles vivendo as coisas pela primeira vez, indo na praia, na cachoeira pela primeira vez. É uma experiência impagável”, conta.

“Com o Na Estrada, eu vi que as pessoas sempre ficavam me perguntando como eu tinha coragem de sair com a Clara e se sentiam inspiradas por eu fazer tanta coisa com ela. Com o tempo fui percebendo que aquela história, que o Na Estrada, não era só sobre mim ou sobre a Clara. Que era sobre várias mulheres que estão superando as expectativas”, comenta.

Camila

Os desafios de viajar sozinha

Grande parte dos roteiros da Camila tiveram a Clara como acompanhante. E agora ela está no processo de se redescobrir como viajante solo. “A primeira vez que eu fui sozinha depois da Clara foi uma experiência muito interessante, porque eu pude ver o quanto eu me negligencio quando viajo com ela. Nós fizemos várias viagens e o tempo todo eu estou preocupada se tem fralda o suficiente, se tem touca, se tem meia, se ela vai largar minha mão e sair correndo e aí eu esqueço de pensar em mim. Recentemente eu comecei esse processo de viajar realmente sozinha, sem a Clara, e tem sido um processo difícil, de entender que eu sou um indivíduo e a Clara é outro”, revela.

Para quem quer explorar o mundo, mas ainda não deu o primeiro passo, a Camila deixa o conselho: “Para de se auto sabotar e se dar desculpas. Eu entendo que a viagem se tornou minha prioridade. Qualquer desculpa que eu tente dar para mim mesmo não funciona mais. A gente tá sempre arranjando desculpas e acho que essa é uma das primeiras coisas que precisamos refletir sobre. Ah, eu não tenho tempo. Então eu vou no final de semana. Eu não tenho dinheiro. Então eu vou economizar. Eu não tenho com quem deixar o meu filho. Então vou levar meu filho. Acho que tudo começa pela mente e fazendo esse movimento a gente acaba conseguindo viver experiências indescritíveis. Vai. Vai sozinha, vai acompanhada, só vai”.
O "Viaje, mulher" tem como objetivo dar mais visibilidade para os desafios das viajantes brasileiras. Nós, do Voopter, acreditamos que todas devem ter o direito de conhecer novos destinos, culturas e pessoas, com segurança e liberdade. E é isso que desejamos no Dia Internacional da Mulher. E em todos os outros dias também! Compartilhe essa mensagem! :)